Entre o lulismo e o bolsonarismo: a polarização que empobrece o Brasil
Por Luís Rocha
Jornalista
O Brasil vive aprisionado por uma falsa escolha. De um lado, o lulismo; do outro, o bolsonarismo. Dois fenômenos políticos que se alimentam mutuamente, que dependem da radicalização permanente e que prosperam não pela qualidade da governança, mas pela exploração emocional da miséria, do medo e do ressentimento social. Ambos são expressões distintas de uma mesma patologia política: o populismo irresponsável, personalista e polarizador.
É preciso dizer com clareza: Luiz Inácio Lula da Silva não é socialista, não é comunista e nunca defendeu um Estado forte, planejador e soberano nos moldes das grandes experiências desenvolvimentistas do mundo contemporâneo. Lula é um social-democrata pragmático — quando não um gestor refém da conciliação permanente com o capital financeiro — que, em seu terceiro mandato, governa sem projeto estrutural, sem ousadia e sem responsabilidade histórica.
O mito de Lula como “líder global” sustenta-se muito mais no peso geopolítico do Brasil do que em uma estratégia nacional consistente. O Brasil é grande apesar de seus governantes, não por causa deles. Sexta maior população do planeta, território continental e riquezas naturais abundantes não foram convertidos em soberania produtiva, industrial ou energética. Pelo contrário: assistimos à continuidade da condição colonial, agora travestida de discurso progressista.
A atual política econômica é um exemplo gritante dessa contradição. Enquanto o discurso oficial se ancora na defesa dos pobres, a prática favorece o rentismo. Taxas de juros que beiram 15% sufocam a indústria, inviabilizam o empreendedorismo produtivo e beneficiam exclusivamente o sistema financeiro. Recursos são retirados de obras estratégicas, da infraestrutura e da reindustrialização para alimentar políticas sociais sem inovação, sem controle rigoroso e sem capacidade real de emancipação.
Assistencialismo sem projeto não liberta; administra a pobreza.
Programas sociais repetidos, sem criatividade e sem integração com desenvolvimento urbano, tecnológico e produtivo, tornam-se instrumentos eleitorais, não ferramentas de transformação. A pobreza vira ativo político. A miséria, discurso. O povo, massa de manobra.
Ao redor do poder, consolidou-se um ambiente de bajulação acrítica. A crítica interna foi sufocada. A autocrítica, abolida. O governo tornou-se refém de aduladores profissionais, cuja lealdade não é ao país, mas à proximidade com o poder. Esse é um traço típico do lulismo contemporâneo — e não muito diferente do bolsonarismo, que operava com a mesma lógica de culto à personalidade, perseguição ao dissenso e radicalização permanente.
Aqui reside o ponto central: lulismo e bolsonarismo não são opostos reais; são espelhos deformados um do outro. Ambos sobrevivem da polarização. Ambos precisam do inimigo permanente. Ambos rejeitam a construção de consensos nacionais mínimos. Ambos dividem o país em “nós contra eles”, destruindo qualquer possibilidade de projeto civilizatório comum.
O resultado está diante de nós. Mais de 400 empresas brasileiras migraram para o Paraguai. A indústria nacional perde competitividade. O país assiste passivamente à erosão de sua base produtiva. A energia barata de Itaipu — construída majoritariamente com recursos brasileiros — é utilizada como vantagem competitiva externa, enquanto o Brasil perde soberania energética e capacidade industrial. O petróleo, o minério e os ativos estratégicos seguem sem uma política firme de reestatização ou controle nacional.
Nada disso é acidente. É consequência direta de uma governança sem coragem, sem planejamento e sem visão de longo prazo.
Reconhecer os acertos do passado não obriga à cegueira no presente. Os dois primeiros governos Lula tiveram méritos inegáveis. O governo Dilma tentou, com coragem, enfrentar distorções históricas e foi brutalmente interrompido. Mas insistir na repetição de um modelo esgotado, sem autocrítica e sem atualização histórica, transforma o lulismo em um obstáculo — não em uma solução.
O Brasil não precisa escolher entre Lula e Bolsonaro. Precisa superar ambos.
A polarização é estéril. Não une a pátria, não fortalece a democracia, não melhora a vida do povo. Apenas garante a sobrevivência de lideranças que se retroalimentam do caos que produzem.
O país precisa de um novo pacto nacional:
– com soberania econômica real;
– com reindustrialização planejada;
– com políticas sociais emancipadoras, não eleitoreiras;
– com controle público rigoroso;
– com liderança ética, técnica e corajosa.
Sem messianismo.
Sem culto à personalidade.
Sem populismo.
O futuro do Brasil exige maturidade política, união nacional e a coragem de romper com epidemias políticas que já provaram seus limites.
Lulismo e bolsonarismo são parte do problema.
A superação deles é parte indispensável da solução.
Urias Rocha BR - jornalista independente e membro da ADESG



