DESENVOLVIMENTO NACIONAL: O CAPITAL DEVE SERVIR À PRODUÇÃO, NÃO SUBORDINAR O PAÍS À ESPECULAÇÃO FINANCEIRA
Por URIAS ROCHA BR — jornalista independente e membro da ADESG
O desenvolvimento econômico de uma nação deve ser medido pela sua capacidade de gerar empregos, ampliar a renda dos trabalhadores, fortalecer a indústria nacional, modernizar a agricultura, estimular a ciência e a tecnologia e melhorar as condições de vida da população. Sob essa perspectiva, o Brasil precisa priorizar o investimento no setor produtivo, sem permitir que as exigências de rentabilidade do mercado financeiro se sobreponham aos interesses estratégicos da sociedade.
1. Mercado produtivo: a base da riqueza nacional
O investimento produtivo transforma recursos financeiros em capacidade econômica concreta. Quando o capital é direcionado à indústria, à infraestrutura, à agricultura, à energia, à habitação, à educação e à inovação tecnológica, cria condições para ampliar a produção, gerar empregos, desenvolver fornecedores e aumentar a arrecadação pública.
Uma fábrica instalada, uma ferrovia construída, uma usina modernizada ou uma empresa tecnológica desenvolvida podem produzir efeitos duradouros sobre a economia. Esses investimentos fortalecem cadeias produtivas, ampliam a oferta de bens e serviços e contribuem para a soberania econômica do país.
Por isso, a política econômica brasileira deve estimular o crédito produtivo, a formação de capital nacional, a industrialização, a pesquisa científica e o empreendedorismo. O Estado tem papel estratégico na criação de condições para que o investimento privado e o investimento público se complementem, especialmente nos setores essenciais ao desenvolvimento nacional.
2. Mercado financeiro: instrumento econômico ou finalidade em si mesmo?
O mercado financeiro exerce funções importantes, como financiar empresas, viabilizar investimentos, oferecer mecanismos de proteção contra riscos e permitir a negociação de ativos. A bolsa de valores também pode contribuir para que empresas obtenham recursos destinados à expansão de suas atividades.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre o capital que financia a produção e aquele que busca ganhos predominantemente por meio da valorização de ativos e de operações de curto prazo.
A negociação de ações no mercado secundário, por exemplo, não transfere automaticamente novos recursos para a empresa emissora. O benefício produtivo depende de como o sistema financeiro direciona a poupança para investimentos, da estrutura das operações e da aplicação efetiva dos recursos captados.
Portanto, o problema não é a existência do mercado financeiro, mas a possibilidade de sua dinâmica se distanciar das necessidades da economia real. Quando a rentabilidade financeira de curto prazo se torna o principal parâmetro das decisões econômicas, o país corre o risco de manter recursos concentrados em operações patrimoniais enquanto setores produtivos enfrentam dificuldades de financiamento.
O capital deve ser um instrumento de desenvolvimento, e não uma força capaz de impor seus interesses ao conjunto da sociedade.
3. A pressão financeira e os riscos à estabilidade nacional
A política econômica brasileira precisa ser discutida com base em dados, transparência e interesse público. Entretanto, decisões governamentais podem sofrer pressões de agentes financeiros, investidores, grandes credores e instituições que reagem às expectativas sobre juros, inflação, câmbio, dívida pública e resultados fiscais.
Essas reações podem ser legítimas manifestações de avaliação econômica. Contudo, tornam-se um problema democrático quando a ameaça de retirada de capitais, a volatilidade dos ativos ou a deterioração das expectativas são utilizadas como instrumentos de pressão para limitar o debate público ou impedir a discussão de alternativas econômicas.
É necessário distinguir a avaliação de riscos, inerente ao funcionamento dos mercados, de eventuais tentativas de constranger decisões soberanas. Nem toda oscilação financeira representa chantagem, mas nenhum setor econômico deve possuir poder de veto sobre as escolhas legítimas de um governo democraticamente eleito.
A estabilidade nacional não depende apenas da confiança dos investidores. Depende também da estabilidade do emprego, da segurança alimentar, da capacidade industrial, do equilíbrio fiscal sustentável, da proteção social e da confiança da população nas instituições.
Um país que sacrifica continuamente seus investimentos estratégicos para satisfazer expectativas financeiras imediatas pode comprometer sua capacidade de crescimento futuro. Da mesma forma, ignorar inflação, endividamento e riscos fiscais pode produzir instabilidade que prejudica justamente os trabalhadores e as empresas produtivas.
O desafio consiste em construir uma política econômica que concilie responsabilidade fiscal, estabilidade monetária e expansão dos investimentos, sem transformar as preferências de determinados grupos financeiros em obrigações políticas incontestáveis.
4. Juros elevados e o custo de oportunidade do desenvolvimento
Taxas de juros elevadas podem encarecer o crédito para empresas, agricultores e consumidores, dificultando a expansão da produção e o investimento de longo prazo. Também podem aumentar o custo de financiamento do Estado e restringir o espaço orçamentário disponível para políticas públicas.
Por outro lado, a política monetária precisa considerar as pressões inflacionárias, as expectativas, o crédito e as condições gerais da economia. Não seria tecnicamente correto afirmar que toda elevação de juros atende exclusivamente aos interesses financeiros ou que a redução das taxas, isoladamente, garante crescimento sustentável.
A questão central é avaliar os custos e benefícios das decisões monetárias e fiscais, seus efeitos distributivos e suas consequências para a capacidade produtiva brasileira.
O Brasil precisa ampliar os mecanismos de financiamento de longo prazo, fortalecer bancos públicos de desenvolvimento, estimular o mercado de capitais voltado à expansão empresarial e criar condições para que projetos produtivos viáveis obtenham recursos a custos compatíveis com seu retorno econômico.
5. O Estado deve planejar o desenvolvimento e proteger o interesse público
O Estado brasileiro não deve substituir indiscriminadamente a iniciativa privada, mas precisa exercer sua função de planejamento, regulação e coordenação estratégica.
Isso significa priorizar investimentos com potencial de elevar a produtividade, reduzir desigualdades regionais e ampliar a autonomia econômica nacional, observando critérios de eficiência, transparência e responsabilidade fiscal.
Entre as prioridades estão:
- Industrialização: ampliar a produção nacional e reduzir vulnerabilidades em setores estratégicos.
- Infraestrutura: investir em ferrovias, portos, rodovias, saneamento, energia e logística.
- Agricultura e alimentos: fortalecer a produção, a armazenagem, a agroindústria e a segurança alimentar.
- Ciência e tecnologia: financiar pesquisa, inovação, digitalização e formação profissional.
- Pequenas e médias empresas: ampliar o acesso ao crédito e reduzir barreiras à expansão produtiva.
- Energia e recursos naturais: agregar valor à produção brasileira e ampliar a capacidade tecnológica nacional.
- Responsabilidade fiscal: avaliar resultados, controlar desperdícios e garantir que os investimentos produzam benefícios econômicos e sociais mensuráveis.
A política de desenvolvimento deve considerar não apenas o retorno financeiro imediato, mas também os efeitos sobre o emprego, a produtividade, a renda, a arrecadação e a capacidade tecnológica do país.
Conclusão: soberania econômica significa liberdade para escolher o próprio desenvolvimento
O Brasil não pode medir seu sucesso exclusivamente pela valorização de ativos financeiros, pela reação diária da bolsa ou pelas expectativas de rentabilidade dos credores. Esses indicadores podem fornecer informações úteis, mas não substituem os indicadores concretos de desenvolvimento humano e econômico.
A verdadeira estabilidade nacional exige uma economia capaz de produzir, inovar, gerar empregos e sustentar serviços públicos de qualidade. Exige também instituições sólidas, regras previsíveis e responsabilidade na gestão dos recursos públicos.
O mercado financeiro deve participar desse processo como financiador e intermediário da atividade econômica, e não como centro exclusivo das decisões nacionais. A poupança e o crédito precisam encontrar caminhos para financiar projetos que ampliem a capacidade produtiva brasileira, em vez de alimentar apenas a valorização patrimonial e as operações especulativas.
O Brasil precisa de uma economia na qual o capital financie o trabalho, a inovação e a produção; na qual a política econômica responda ao interesse público; e na qual nenhuma pressão privada substitua o debate democrático sobre o futuro da nação.
Soberania econômica não significa ignorar os mercados. Significa ter capacidade de negociar com eles sem abrir mão das prioridades nacionais.
URIAS ROCHA BR
Jornalista independente e membro da ADESG
