domingo, 18 de janeiro de 2026

Paraguai, Mercosul e a Erosão Silenciosa do Interesse Nacional Brasileiro

Paraguai, Mercosul e a Erosão Silenciosa do Interesse Nacional Brasileiro.

Urias Rocha - Jornalista independente e membro da ADESG 

Nas últimas décadas, consolidou-se um movimento crescente e preocupante: empresas brasileiras, capital brasileiro e tecnologia desenvolvida no Brasil estão sendo transferidos para o Paraguai, atraídos por um ambiente regulatório extremamente favorável ao capital produtivo estrangeiro. Esse processo, embora apresentado por alguns como “integração regional”, tem ocorrido à custa direta dos interesses nacionais brasileiros, sem contrapartidas equivalentes e sem a devida mediação do Parlamento brasileiro.

O Paraguai construiu, de forma estratégica, um modelo agressivo de atração industrial. Baixa carga tributária, legislação trabalhista flexível, energia barata — grande parte oriunda de Itaipu — e o regime de maquila, que praticamente transforma o país em uma plataforma de produção voltada ao mercado brasileiro, criaram uma vantagem competitiva artificial. Artificial porque não nasce de maior produtividade ou inovação, mas da exploração de assimetrias institucionais dentro do próprio Mercosul.

O resultado é claro: o Brasil exporta empregos, arrecadação, densidade industrial e valor agregado, enquanto importa produtos fabricados por empresas que, até pouco tempo, estavam instaladas em território nacional. O capital continua brasileiro, o mercado consumidor continua brasileiro, mas o trabalho, os impostos e parte da soberania econômica passam a ser paraguaios.

Mais grave ainda é a ausência quase absoluta do Parlamento brasileiro nesse debate. Não há uma legislação robusta de proteção do interesse nacional, não há mecanismos compensatórios, não há exigência de conteúdo local equilibrado, tampouco cláusulas de salvaguarda industrial eficazes no âmbito do Mercosul. O Congresso Nacional, ao se omitir, aceita passivamente a desindustrialização silenciosa do país, enquanto celebra discursos genéricos de integração regional.

O Mercosul, concebido para promover desenvolvimento conjunto, converteu-se, nesse ponto, em um instrumento de concorrência desigual interna, no qual países menores utilizam vantagens regulatórias para atrair produção às custas do maior mercado do bloco. Não se trata de condenar o Paraguai por agir em defesa de seus interesses nacionais — isso é legítimo. O problema central é que o Brasil não faz o mesmo.

A ausência de uma política industrial coerente, aliada à insegurança jurídica, à complexidade tributária e ao custo Brasil, empurra empresários para fora do país. E quando o Estado brasileiro não reage, o que se perde não é apenas arrecadação, mas capacidade estratégica, autonomia produtiva e poder de decisão sobre seu próprio futuro econômico.

Se o Brasil pretende continuar sendo protagonista regional e potência econômica, precisará rever urgentemente sua postura. Integração não pode significar subjugação, e cooperação não pode ser sinônimo de renúncia unilateral. Sem regras claras, sem ação legislativa e sem defesa explícita do interesse nacional, o país continuará assistindo, inerte, à migração de sua base produtiva — e, com ela, de sua soberania.


Urias Rocha BR
Jornalista independente e membro da ADESG


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