Quando o medo bate à porta, o poder tenta comprar a Justiça
Campo Grande assiste a um espetáculo conhecido na história política brasileira: quando o mandato ameaça ruir, o poder corre para os escritórios mais caros do país. Sob risco real de cassação, a prefeita Adriane Lopes não respondeu às acusações com explicações ao povo — respondeu com uma advogada milionária, ex-ministra do TSE, acostumada a defender interesses poderosos.
Não é coincidência.
É medo.
O Tribunal Regional Eleitoral reconheceu que houve crime eleitoral. Reconheceu compra de votos. Reconheceu uso de estrutura pública. Reconheceu dinheiro circulando na periferia como se democracia fosse mercadoria. E mesmo assim, por uma brecha técnica, decidiu não cassar.
Não absolveu.
Apenas empurrou a verdade para debaixo do tapete.
PIX de assessora direta.
Motorista oficial do gabinete.
Pagamentos em dinheiro vivo, jogados pela janela do carro.
Promessas da presença da própria prefeita.
Isso não é campanha.
Isso é corrupção eleitoral organizada.
A tese de que a prefeita “não sabia” não é ingenuidade — é insulto à inteligência do povo. Crimes eleitorais não acontecem no improviso. Eles exigem comando, recursos, logística e objetivo claro: manter o poder a qualquer custo.
O próprio Ministério Público alerta: se essa decisão prevalecer, cria-se um manual da impunidade. Basta o candidato se afastar formalmente da execução do crime e deixar que subordinados façam o serviço sujo. Democracia vira farsa. Eleição vira teatro.
Agora, em Brasília, tenta-se resolver o problema com dinheiro, prestígio e influência. A defesa aposta que o peso político falará mais alto que as provas. Aposta que a Justiça fechará os olhos mais uma vez.
Mas há um limite.
O TSE já cassou mandato por dois votos comprados. Em Campo Grande, fala-se em centenas, estrutura profissionalizada e uso da máquina pública. Se isso não for suficiente para cassação, então a lei eleitoral perdeu o sentido.
Não se trata de esquerda ou direita.
Não se trata de partido.
Trata-se de respeito ao voto, à periferia usada como moeda e à democracia violentada.
Quando governantes precisam de advogados milionários para se manter no cargo, é porque já perderam aquilo que nunca deveriam ter perdido: legitimidade moral.
A pergunta agora não é jurídica.
É histórica.
A Justiça vai proteger o mandato — ou a democracia?
Por Urias Rocha BR
Jornalista independente e membro da ADESG
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