Tecnologia para quem? Quando o progresso ameaça o trabalho e a própria existência humana
Por Urias Rocha — Jornalista e membro da ADESG
Vivemos uma das maiores transformações da história da humanidade. A tecnologia avança em velocidade extraordinária, a inteligência artificial modifica profissões, máquinas substituem trabalhadores e a robotização começa a ocupar espaços que, durante séculos, foram destinados exclusivamente à força e à inteligência humanas.
A pergunta que precisamos fazer, entretanto, não é apenas “até onde a tecnologia pode chegar?”. A pergunta fundamental é outra:
Até onde podemos permitir que a tecnologia avance sem colocar em risco a própria existência humana?
O desenvolvimento tecnológico não pode ser analisado apenas pela capacidade de produzir mais, reduzir custos, aumentar lucros ou substituir trabalhadores. Existe uma dimensão política, social, ambiental e filosófica que precisa estar no centro desse debate: para que serve o progresso se ele não melhorar a vida das pessoas?
A humanidade não pode transformar o ser humano em uma variável secundária de seu próprio desenvolvimento.
A máquina substitui o trabalhador, mas quem substitui a renda?
O problema não está na tecnologia em si. A tecnologia pode libertar o ser humano de trabalhos penosos, perigosos e repetitivos. Pode ampliar a produtividade, melhorar a medicina, democratizar o conhecimento e produzir ganhos extraordinários para a sociedade.
O perigo começa quando a tecnologia é utilizada exclusivamente para reduzir custos e aumentar a concentração de riqueza.
Um exemplo cotidiano já pode ser observado nos supermercados. Progressivamente, caixas tradicionais são substituídos por sistemas de self-checkout, nos quais o próprio consumidor registra suas compras, realiza o pagamento e sai do estabelecimento sem a presença de um trabalhador exercendo aquela função.
Para a empresa, pode significar redução de custos.
Para o consumidor, pode representar rapidez.
Mas para o trabalhador substituído, significa uma pergunta dramática:
“E agora, como vou sustentar minha família?”
Essa pergunta ainda não possui resposta adequada.
E ela será cada vez mais frequente.
Não se trata apenas do caixa de supermercado. Caminhamos para uma sociedade em que caminhões poderão ser autônomos, sistemas administrativos serão automatizados, bancos reduzirão estruturas físicas, fábricas terão cada vez menos trabalhadores, escritórios utilizarão inteligência artificial para executar tarefas antes realizadas por dezenas ou centenas de pessoas.
A tecnologia poderá produzir mais riqueza com menos gente.
E é justamente aí que está o grande dilema do século XXI.
Quem ficará com a riqueza produzida pelas máquinas?
Se uma fábrica produz o dobro utilizando metade dos trabalhadores, quem ficará com os ganhos de produtividade?
Se uma empresa substitui cem empregados por sistemas automatizados, a riqueza economizada será distribuída socialmente ou ficará concentrada nos proprietários do capital?
Essa discussão precisa sair dos laboratórios e das salas dos grandes conglomerados tecnológicos e chegar ao Parlamento, às universidades, aos sindicatos, aos movimentos sociais e à sociedade.
Porque o problema não é simplesmente tecnológico.
É político.
Durante séculos, o trabalho foi o principal mecanismo de distribuição de renda e de integração social. O trabalhador recebia pelo seu trabalho e, com esse rendimento, sustentava sua família, consumia, pagava impostos, educava os filhos e participava da economia.
Se a tecnologia destruir progressivamente postos de trabalho, precisamos perguntar:
Qual será o novo mecanismo de distribuição da riqueza?
Não podemos simplesmente aceitar uma sociedade com poucos bilionários controlando máquinas, algoritmos, dados e capital, enquanto milhões de seres humanos ficam sem ocupação, sem renda e sem perspectiva.
O ócio tecnológico pode transformar-se em desocupação social
Existe uma diferença profunda entre tempo livre e desocupação.
O tempo livre pode ser uma conquista civilizatória. Uma pessoa que trabalha menos porque a tecnologia aumentou a produtividade pode dedicar-se à família, à cultura, ao esporte, à educação, à ciência e à vida comunitária.
Mas isso somente acontece quando existe segurança econômica.
Sem renda, o tempo livre transforma-se em desemprego.
Sem emprego e sem renda, o ócio pode transformar-se em exclusão.
E a exclusão econômica pode produzir desesperança, violência, marginalização, adoecimento social e degradação da própria democracia.
Por isso, a discussão sobre automação precisa ser acompanhada de uma discussão séria sobre renda, trabalho, tributação, seguridade social e função social das empresas.
Não podemos esperar que milhões de trabalhadores percam seus empregos para somente depois procurar uma solução.
O Brasil precisa abandonar o preconceito contra a proteção social
O Brasil possui uma contradição histórica.
Ao mesmo tempo em que é um dos países mais desiguais do mundo, ainda existe forte preconceito político contra políticas de proteção social e programas de transferência de renda.
Entretanto, diante da transformação tecnológica, precisamos compreender que garantir uma renda mínima às famílias não é simplesmente uma questão de assistência.
Pode ser uma questão de sobrevivência econômica e estabilidade social.
Se a produtividade crescer extraordinariamente graças às máquinas e à inteligência artificial, a sociedade precisará encontrar mecanismos para que parte dessa riqueza retorne à população.
Isso pode envolver tributação sobre grandes patrimônios e lucros, fundos de transição tecnológica, qualificação profissional, redução da jornada de trabalho, renda mínima, serviços públicos universais e novas formas de participação dos trabalhadores nos ganhos de produtividade.
Não existe uma única solução.
Mas existe uma certeza:
não podemos deixar milhões de pessoas para trás.
Todo CNPJ deveria carregar uma responsabilidade social
Precisamos também discutir a natureza social da empresa.
Uma empresa não é apenas uma máquina destinada à produção de lucro. Ela está inserida em uma sociedade, utiliza infraestrutura pública, trabalhadores formados pelo sistema educacional, estradas, energia, segurança, Justiça, recursos naturais e inúmeros serviços financiados coletivamente.
Portanto, todo CNPJ possui, além de sua função econômica, uma função social.
Isso não significa obrigar artificialmente cada empresa a manter empregos que a tecnologia tornou desnecessários.
Significa construir um sistema no qual o avanço tecnológico venha acompanhado de responsabilidade social.
Se determinada atividade puder ser automatizada, parte dos ganhos dessa automação deve contribuir para a sociedade que tornou aquela inovação possível.
Precisamos construir uma nova relação entre capital, trabalho, tecnologia e Estado.
O Estado não pode ser espectador
O Estado brasileiro não pode assistir passivamente à transformação tecnológica.
É preciso planejar.
A política não pode trabalhar apenas com o horizonte da próxima eleição. Um país precisa pensar em 50, 100 e até 200 anos.
Que empregos existirão?
Que profissões desaparecerão?
Como será financiada a Previdência?
Como será distribuída a riqueza?
Como será garantida a renda das famílias?
Como serão formados os jovens?
Como será utilizada a inteligência artificial?
Quem controlará os grandes bancos de dados?
Como protegeremos a soberania tecnológica brasileira?
Essas perguntas deveriam fazer parte de um grande Projeto Brasil de Existência.
Um projeto que não enxergue o cidadão apenas como consumidor, eleitor ou contribuinte, mas como ser humano portador de dignidade, direitos e necessidades materiais.
Desenvolvimento sustentável precisa ser também humano
Durante décadas, falamos em desenvolvimento sustentável principalmente sob a perspectiva ambiental.
E isso é absolutamente necessário.
Mas precisamos ampliar o conceito.
Não existe desenvolvimento verdadeiramente sustentável se ele destrói a dignidade humana.
De nada adianta produzir riquezas extraordinárias, ampliar a capacidade industrial, desenvolver inteligência artificial e criar máquinas cada vez mais sofisticadas se, paralelamente, milhões de pessoas estiverem passando fome, sem moradia, sem acesso à saúde, sem educação e sem perspectivas.
O ser humano também faz parte do meio ambiente.
Preservar a natureza é preservar a vida.
Mas preservar a vida também significa preservar as condições materiais para que as pessoas possam existir com dignidade.
Não podemos construir um futuro de máquinas e miséria
O maior risco não é a máquina tornar-se inteligente.
O maior risco é a sociedade tornar-se socialmente irracional.
Uma sociedade capaz de construir robôs sofisticados, mas incapaz de garantir alimento às suas crianças.
Uma sociedade capaz de produzir inteligência artificial, mas incapaz de garantir moradia.
Uma sociedade capaz de enviar equipamentos para outros planetas, mas incapaz de oferecer saúde pública de qualidade a milhões de pessoas.
Uma sociedade capaz de criar trilhões em riqueza financeira, mas que permite que seres humanos sejam descartados porque seus trabalhos deixaram de ser economicamente necessários.
Esse seria um fracasso civilizatório.
A tecnologia deve servir à humanidade
Precisamos inverter a lógica.
Não é o ser humano que deve existir para servir à tecnologia.
É a tecnologia que deve existir para servir ao ser humano.
O progresso tecnológico precisa ser acompanhado de progresso social.
Se uma máquina aumenta a produtividade, ótimo.
Se a inteligência artificial melhora a medicina, excelente.
Se a robotização elimina trabalhos perigosos, melhor ainda.
Mas os ganhos dessa transformação precisam ser socialmente distribuídos.
Precisamos trabalhar menos, viver melhor, estudar mais, conviver mais e garantir que ninguém seja condenado à miséria porque uma máquina passou a fazer aquilo que antes era realizado por um trabalhador.
A tecnologia pode ser uma ferramenta de libertação humana.
Mas também pode transformar-se em instrumento de concentração de riqueza e poder.
A escolha não será feita pelas máquinas.
Será feita pelos seres humanos.
E essa escolha é essencialmente política.
O Brasil precisa compreender que o século XXI não será apenas o século da inteligência artificial, da robotização e dos algoritmos.
Será o século em que teremos de decidir qual lugar queremos reservar ao ser humano dentro desse novo mundo.
Se não fizermos essa escolha conscientemente, outros a farão por nós.
E talvez descubramos tarde demais que construímos máquinas extraordinariamente inteligentes para administrar uma sociedade cada vez menos humana.
A tecnologia deve avançar. A humanidade também.
Nenhum progresso merece esse nome se, para enriquecer poucos, condenar milhões à desocupação, à fome e à falta de esperança.
O verdadeiro desenvolvimento não é aquele que substitui pessoas.
É aquele que liberta pessoas.
Urias Rocha
Jornalista e membro da ADESG
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