A DIREITA BRASILEIRA DIANTE DO ESPELHO DA RAZÃO
Por Urias Rocha — jornalista e filósofo
A política brasileira atravessa um período em que paixão, identidade ideológica e racionalidade frequentemente se confundem. Em meio à polarização, parcela da direita nacional parece ter perdido uma oportunidade importante: a de construir uma alternativa conservadora, democrática, nacionalista e, sobretudo, comprometida com uma visão estratégica de Brasil.
É nesse contexto que considero pertinente discutir o papel de Ronaldo Caiado. Independentemente de concordâncias ou divergências em relação às suas posições políticas, é preciso reconhecer que Caiado representa uma corrente da direita que possui experiência administrativa, conhecimento da realidade brasileira e uma postura menos subordinada à lógica dos extremos.
Não se trata de transformar Caiado em unanimidade. Democracia não é unanimidade. Trata-se de reconhecer que, em uma sociedade madura, competência e responsabilidade devem ser avaliadas para além das paixões partidárias.
A direita brasileira poderia ter ocupado um espaço político relevante apresentando ao país um projeto de desenvolvimento baseado em responsabilidade fiscal, fortalecimento institucional, segurança jurídica, produção, infraestrutura, soberania e inserção estratégica no cenário internacional.
Entretanto, em determinados momentos, setores desse campo político preferiram a radicalização, o personalismo e a política de confronto permanente. O resultado foi o empobrecimento do debate público e a transformação da política em uma espécie de guerra cultural permanente.
Governar, entretanto, não é guerrear. Governar é administrar.
Um presidente da República precisa compreender que o Brasil não existe isoladamente. Somos uma das maiores economias do mundo, possuímos recursos naturais estratégicos, uma enorme produção agrícola, capacidade energética, mercado consumidor e uma posição geopolítica privilegiada.
Por isso, qualquer projeto nacional sério precisa olhar para o mundo.
É necessário compreender o papel do BRICS, as relações comerciais com a China, os Estados Unidos, a Rússia, a Índia e a União Europeia, além da crescente importância econômica da África e da América Latina.
É igualmente necessário discutir juros, câmbio, indústria, energia, infraestrutura, tecnologia, agricultura, mineração e soberania econômica.
Não podemos transformar relações internacionais em torcida organizada.
O Brasil deve negociar com todos e submeter suas relações exteriores a um princípio elementar: o interesse nacional.
Um governo verdadeiramente responsável precisa ter liberdade para conversar com Washington, Pequim, Moscou, Nova Délhi, Bruxelas, Buenos Aires ou qualquer outra capital do mundo, sem transformar diplomacia em submissão ideológica.
É justamente nesse ponto que a política deixa de ser apenas disputa eleitoral e passa a ser geopolítica.
A minha crítica à direita brasileira não é uma crítica à existência da direita. Pelo contrário. Uma democracia saudável precisa de uma direita forte, assim como precisa de uma esquerda forte. O problema surge quando qualquer campo político abandona a racionalidade e passa a acreditar que seus líderes são infalíveis e seus adversários são inimigos da nação.
Esse fenômeno é perigoso porque transforma cidadãos em torcedores.
E uma democracia composta por torcedores deixa de discutir ideias para defender pessoas.
Não precisamos de salvadores da pátria. Precisamos de estadistas.
Precisamos de dirigentes capazes de compreender que uma eleição dura alguns meses, um mandato dura alguns anos, mas uma nação atravessa gerações.
Por isso, afirmo com serenidade: eu não teria receio de perder uma eleição para Ronaldo Caiado.
Se o adversário for um homem que considero preparado para governar com responsabilidade, respeitar as instituições e defender os interesses nacionais, perder uma eleição seria parte natural da democracia.
Muito mais preocupante seria ganhar uma eleição através da irracionalidade, do extremismo, da intolerância e da destruição permanente do adversário político.
A democracia não exige que pensemos da mesma maneira. Exige que saibamos conviver com as diferenças.
Uma sociedade politicamente madura precisa ser capaz de reconhecer uma qualidade no adversário sem, por isso, abandonar suas próprias convicções.
Quando perdemos essa capacidade, deixamos de fazer política e passamos a praticar sectarismo.
É necessário, portanto, que a direita brasileira faça uma reflexão profunda. Não uma reflexão sobre quem deve idolatrar, mas sobre qual projeto de país pretende oferecer ao povo brasileiro.
A direita tem espaço legítimo na democracia brasileira. Mas esse espaço precisa ser ocupado pela inteligência, pela responsabilidade, pelo conhecimento econômico, pela visão geopolítica e pelo compromisso institucional — e não pela radicalização permanente.
Da mesma forma, a esquerda também precisa compreender que democracia não significa monopólio da virtude.
O Brasil não pertence à esquerda, à direita ou ao centro.
O Brasil pertence aos brasileiros.
E talvez essa seja a maior conclusão que podemos tirar deste momento histórico: precisamos substituir a política do ódio pela política das ideias; o personalismo pelo projeto; o fanatismo pela razão; e a polarização pela capacidade de dialogar.
Não se trata simplesmente de escolher entre esquerda e direita.
Trata-se de escolher entre razão e irracionalidade; projeto e improvisação; soberania e submissão; civilidade e extremismo.
A História costuma cobrar caro daqueles que confundem paixão política com inteligência estratégica.
As eleições passam.
Os governos passam.
Os políticos passam.
Mas o Brasil permanece.
E é ao Brasil que devemos prestar contas.
URIAS ROCHA
Jornalista e filósofo
Membro da ADESG
Candidato a Deputado Federal — MS
1800
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