AVIBRAS: QUANDO O CAPITAL BRASILEIRO DECIDE DEFENDER A TECNOLOGIA NACIONAL
Joesley e Wesley Batista entram na indústria estratégica de defesa e assumem o desafio de preservar uma das maiores joias tecnológicas do Brasil
Por Urias Rocha — jornalista, filósofo e membro da Escola Superior de Guerra
CHAMADA DE IMPACTO
Enquanto o mundo disputa minerais estratégicos, tecnologia, energia e poder militar, dois empresários brasileiros colocam seu próprio capital em uma empresa que carrega décadas de conhecimento estratégico: Joesley e Wesley Batista decidiram comprar a Avibras. Não é apenas uma operação empresarial. É uma decisão que coloca novamente no centro do debate brasileiro uma pergunta fundamental: quem controlará as tecnologias que protegem o Brasil?
O Brasil atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente no cenário internacional.
A disputa mundial por energia, minerais críticos, terras raras, semicondutores, tecnologia aeroespacial e capacidade militar está redesenhando as relações entre as grandes potências. Estados Unidos, China, Rússia e outras potências disputam cadeias estratégicas que determinarão o poder econômico e militar das próximas décadas.
Nesse cenário, o Brasil não pode ser apenas fornecedor de matéria-prima.
Precisa ser dono da tecnologia.
E é justamente nesse ponto que a história da Avibras ganha uma dimensão que ultrapassa o mundo empresarial.
ASTROS: UMA TECNOLOGIA BRASILEIRA DE IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA
A Avibras não é uma empresa comum.
Criada em 1961 por engenheiros ligados ao ambiente tecnológico do ITA, a companhia tornou-se uma referência internacional nos setores aeroespacial e de defesa.
Seu maior símbolo é o Sistema ASTROS, uma plataforma brasileira de artilharia de foguetes e mísseis reconhecida internacionalmente.
Segundo o próprio Ministério da Defesa, o ASTROS pode operar com diferentes tipos de foguetes guiados e mísseis, com alcance que chega a 300 quilômetros. O programa brasileiro inclui o desenvolvimento do Míssil Tático de Cruzeiro e do foguete guiado SS-40G, em parceria entre a Avibras e o Exército.
Documentos do Ministério da Defesa classificam o ASTROS como um dos sistemas mais avançados de foguetes de artilharia e destacam sua capacidade de utilizar uma mesma plataforma para diferentes armamentos, com alcance operacional de aproximadamente 9 a 300 quilômetros.
Não estamos falando apenas de foguetes.
Estamos falando de engenharia, propulsão, eletrônica, comando, controle, integração de sistemas, veículos especializados, materiais e conhecimento acumulado durante décadas.
É conhecimento estratégico.
E conhecimento estratégico não se recompra facilmente depois que é perdido.
O VALOR DE UMA INDÚSTRIA QUE O BRASIL NÃO PODE PERDER
A importância econômica da Avibras também é significativa.
Um documento do governo brasileiro sobre o programa ASTROS estimava, ainda na implantação do ASTROS 2020, milhares de empregos altamente qualificados e uma cadeia produtiva envolvendo dezenas de empresas e centros de pesquisa brasileiros.
Além disso, contratos públicos mostram que o Estado brasileiro continuou investindo na tecnologia.
Em 2023, por exemplo, o Exército contratou a aquisição de foguetes do Sistema ASTROS por aproximadamente R$ 60,8 milhões.
Isso demonstra algo elementar:
o Brasil construiu conhecimento estratégico que possui valor econômico, científico e militar.
Perder essa capacidade significaria não apenas perder uma fábrica.
Significaria correr o risco de perder engenheiros, pesquisadores, fornecedores, patentes, processos industriais e décadas de conhecimento acumulado.
A CRISE DA AVIBRAS E O RISCO DE PERDER O CONTROLE NACIONAL
A situação financeira da empresa chegou a um ponto crítico.
A Avibras entrou em recuperação judicial em 2022, em meio a uma grave crise financeira e à redução de encomendas internacionais. Naquele período, a empresa acumulava centenas de milhões de reais em dívidas.
Em 2024, surgiu uma possibilidade concreta de aquisição por uma empresa australiana, a DefendTex. A própria Avibras confirmou oficialmente que existiam negociações avançadas.
O episódio provocou enorme preocupação no Brasil.
A discussão não era simplesmente:
“Quem vai comprar uma empresa?”
A pergunta verdadeira era:
“Quem controlará uma tecnologia estratégica brasileira?”
Também houve interesse estrangeiro de outros grupos, inclusive chineses, e o governo brasileiro passou a discutir alternativas nacionais para preservar a capacidade estratégica da companhia.
É importante fazer uma correção histórica: não encontrei comprovação de que o governo Bolsonaro tenha efetivamente vendido ou entregue a Avibras a estrangeiros. O que houve foram negociações posteriores com grupos estrangeiros, especialmente em 2024. Portanto, esse ponto não deve ser apresentado como fato consumado.
E ENTÃO SURGEM JOESLEY E WESLEY BATISTA
É nesse momento que a decisão dos irmãos Joesley Batista e Wesley Batista merece ser analisada com atenção.
Em 21 de agosto de 2026, foi anunciada a aquisição de 100% da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, por meio da Globe Investimentos, veículo de investimentos ligado à família Batista.
A operação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica — Cade.
Antes disso, a nova Avibras havia recebido um aporte privado de aproximadamente R$ 300 milhões, com participação de Joesley Batista.
E aqui está o aspecto que merece reflexão nacional.
Eles poderiam investir em inúmeros outros setores.
Poderiam colocar capital em alimentos, mineração, energia, infraestrutura, mercado financeiro ou outros segmentos mais tradicionais.
Mas escolheram entrar em uma área extremamente complexa, regulada e estratégica:
a indústria brasileira de defesa.
PATRIOTISMO EMPRESARIAL? A HISTÓRIA É QUEM VAI RESPONDER
É legítimo perguntar:
O que leva empresários privados a colocar capital em uma companhia que passou por uma crise tão profunda?
A resposta definitiva somente poderá ser dada pelos próprios investidores e pelos resultados da operação.
Mas existe um fato objetivo:
a aquisição preserva, ao menos em princípio, o controle brasileiro de uma empresa considerada estratégica para a defesa nacional.
A própria Globe Investimentos afirmou que pretende sustentar a retomada das operações, preservar a capacidade tecnológica e industrial e criar condições para o crescimento da companhia no Brasil e no exterior.
Por isso, independentemente das controvérsias que envolvem os empresários em outros momentos de suas trajetórias, é preciso separar as coisas.
Uma análise séria não pode transformar empresários em santos.
Mas também não pode transformar automaticamente toda iniciativa empresarial em pecado.
Se a Avibras permanecer brasileira, preservar empregos, recuperar sua engenharia e ampliar sua capacidade tecnológica, o Brasil terá motivos concretos para reconhecer a importância dessa decisão.
UM PATRIMÔNIO QUE PERTENCE AO BRASIL
O ASTROS não pertence apenas a uma empresa.
Ele é resultado de uma cadeia tecnológica que envolve empresas privadas, engenheiros, pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e instituições militares.
O próprio Ministério da Defesa destaca que o programa envolve pesquisa e desenvolvimento em parceria com o Exército e instituições acadêmicas.
Por isso, a recuperação da Avibras precisa ser encarada como política de Estado.
Não pode depender exclusivamente da boa vontade de empresários.
Não pode depender apenas de governos de ocasião.
E muito menos pode ser abandonada quando mudar o presidente da República.
A LIÇÃO DE ALCEU, DE ALCÂNTARA E DA TECNOLOGIA PERDIDA
O Brasil já pagou caro pela perda de conhecimento científico.
Em 2003, a tragédia de Alcântara matou 21 técnicos e pesquisadores brasileiros durante a preparação do VLS-1. A perda humana e tecnológica foi gigantesca.
Não devemos transformar essa tragédia em instrumento de acusações sem comprovação.
Mas devemos aprender com ela.
País que não protege seus cientistas, seus engenheiros e seus centros de pesquisa acaba dependendo da tecnologia dos outros.
E país que depende da tecnologia dos outros perde autonomia.
TERRAS RARAS, PETRÓLEO, ENERGIA E SOBERANIA
A nova corrida geopolítica mundial torna essa discussão ainda mais urgente.
Terras raras e minerais críticos são utilizados em tecnologias de ponta, incluindo equipamentos eletrônicos, motores, sistemas de energia e aplicações relacionadas à defesa.
No Congresso Nacional, já existem debates sobre a participação de empresas estrangeiras em projetos brasileiros de terras raras e sobre o risco de esses minerais estratégicos serem direcionados para cadeias industriais e militares estrangeiras.
Isso não significa, entretanto, que exista prova de uma invasão ou de uma guerra iminente entre Brasil e Estados Unidos.
É preciso ter responsabilidade jornalística.
Até o momento, não há comprovação de que os Estados Unidos estejam preparando uma operação militar contra o Brasil por causa das terras raras.
Inclusive, informações recentes que circularam nas redes sociais sobre supostos navios militares americanos na costa brasileira foram desmentidas pela Marinha e por agências de checagem.
Também foi desmentida a interpretação de que exercícios militares brasileiros recentes seriam uma preparação específica contra os Estados Unidos.
Isso não significa que o Brasil possa relaxar.
Significa justamente o contrário.
Soberania exige lucidez, não pânico.
O BRASIL PRECISA ESTAR PREPARADO PARA O PIOR SEM DESEJAR A GUERRA
As Forças Armadas brasileiras precisam estar preparadas.
Exército, Marinha e Aeronáutica precisam possuir tecnologia, logística, inteligência, comunicação, satélites, drones, defesa cibernética, capacidade aeroespacial, sistemas de monitoramento e indústria nacional de defesa.
Mas preparação militar não significa desejar guerra.
Significa dissuasão.
Um país forte é aquele que consegue dizer:
“O Brasil quer a paz, mas tem capacidade para defender sua soberania.”
Essa deveria ser uma política permanente de Estado.
O próprio planejamento oficial brasileiro prevê investimentos em projetos estratégicos, incluindo caças Gripen, sistemas de defesa, aeronaves e programas tecnológicos.
A AVIBRAS É MAIS DO QUE UMA EMPRESA
Quando o ministro da Defesa, José Múcio, visitou a Avibras em julho de 2026, acompanhado do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos comandantes das Forças Armadas, a visita deixou clara a dimensão estratégica da companhia.
A Avibras foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa em maio de 2026.
Na visita, foram apresentados projetos relacionados à fabricação de componentes para mísseis e foguetes, sistemas de defesa, veículos especiais e soluções aeroespaciais.
Isso explica por que a recuperação da empresa interessa ao Estado brasileiro.
AOS IRMÃOS BATISTA, UMA COBRANÇA E UM RECONHECIMENTO
Se Joesley e Wesley Batista assumiram a responsabilidade de recuperar a Avibras, o Brasil deve cobrar deles duas coisas:
transparência e compromisso nacional.
Que mantenham empregos.
Que preservem engenheiros e pesquisadores.
Que ampliem investimentos.
Que mantenham a tecnologia estratégica no Brasil.
Que fortaleçam a cadeia nacional.
Que não transformem a Avibras apenas em mais um ativo financeiro.
E, se cumprirem esse compromisso, o reconhecimento será inevitável.
Não porque sejam empresários.
Não porque sejam irmãos Batista.
Mas porque quem preserva tecnologia estratégica brasileira presta um serviço ao futuro do país.
O BRASIL PRECISA DE UM NOVO PACTO NACIONAL
A história da Avibras deveria provocar uma discussão muito maior.
Precisamos fortalecer:
Forças Armadas.
Polícia Federal.
Instituições científicas.
Universidades.
ITA.
INPE.
Indústria nacional.
Engenharia brasileira.
Defesa cibernética.
Programa espacial.
Indústria nuclear.
Minerais estratégicos.
Empresas brasileiras de tecnologia.
Porque soberania não é discurso.
Soberania é capacidade.
É capacidade de produzir.
É capacidade de pesquisar.
É capacidade de defender.
É capacidade de negociar.
É capacidade de dizer não.
PÁTRIA NÃO É APENAS UMA BANDEIRA
Pátria é aquilo que uma geração recebe e tem obrigação de entregar mais forte à próxima.
E talvez essa seja a principal lição da Avibras.
Uma empresa brasileira de 65 anos quase desapareceu.
Mas a tecnologia permaneceu.
Os engenheiros permaneceram.
O conhecimento permaneceu.
O ASTROS permaneceu.
E agora surge uma nova oportunidade de reconstrução.
Joesley Batista e Wesley Batista fizeram uma aposta empresarial de grande dimensão.
O tempo dirá se ela será também uma contribuição histórica para a soberania tecnológica brasileira.
Mas uma coisa já podemos afirmar:
o Brasil não pode permitir que tecnologias estratégicas desapareçam por falta de visão de Estado.
Não podemos ser eternamente exportadores de minério, petróleo, soja, carne e outros produtos primários enquanto importamos a tecnologia que transforma nossas próprias riquezas em poder.
O século XXI será vencido por quem controlar conhecimento, energia, minerais estratégicos, inteligência artificial, indústria, espaço e defesa.
E nesse tabuleiro, o Brasil precisa deixar de ser apenas território.
Precisa ser potência tecnológica soberana.
ARTES E BRAVURA À SOBERANIA NACIONAL
Por isso, como jornalista e cidadão brasileiro, proponho uma reflexão que ultrapassa partidos e ideologias:
que o Brasil reconheça todos aqueles que, dentro da legalidade e com responsabilidade, contribuam para preservar sua capacidade tecnológica e industrial de defesa.
Aos irmãos Joesley Batista e Wesley Batista, fica o reconhecimento pela decisão de assumir a recuperação da Avibras — acompanhado da legítima cobrança para que esse investimento se transforme em empregos, ciência, tecnologia e soberania brasileira.
Porque patriotismo não é gritar mais alto.
Patriotismo é construir aquilo que o Brasil não pode perder.
E a Avibras é uma dessas coisas.
ASTROS é tecnologia brasileira.
Avibras é patrimônio estratégico.
Ciência é soberania.
Defesa é independência.
E o futuro do Brasil não pode ser terceirizado.
PÁTRIA AMADA BRASIL — SOBERANIA, CIÊNCIA, TECNOLOGIA E DEFESA NACIONAL.
Urias Rocha
Jornalista, filósofo e membro da Escola Superior de Guerra
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixem seus comentários, com responsabilidade e cidadania.