domingo, 7 de junho de 2026

O Progresso Deve Passar por Cima das Pessoas? Por Urias Rocha

O Progresso Deve Passar por Cima das Pessoas?

Por Urias Rocha BR – Jornalista Independente e Membro da ADESG

A história da humanidade é marcada por uma pergunta que atravessa séculos: qual é o verdadeiro significado do progresso?

Governos, empresas e planejadores costumam medir o desenvolvimento em quilômetros de rodovias, toneladas de concreto, volume de investimentos e crescimento econômico. Mas existe uma métrica ainda mais importante: a dignidade humana.

Recentemente, imagens de uma idosa em Catalão, Goiás, sensibilizaram milhares de brasileiros. A cena retrata não apenas uma disputa fundiária ou um processo de desapropriação. Ela simboliza um conflito muito maior: o embate entre a lógica da obra pública e o direito das pessoas de permanecerem onde construíram suas histórias, memórias e raízes.

Curiosamente, uma das imagens mais conhecidas do mundo sobre resistência às desapropriações surgiu na China. Na cidade de Jinxi, um morador recusou a indenização oferecida para a construção de uma rodovia. O Estado decidiu prosseguir com a obra sem demolir imediatamente a residência. Durante um período, a casa permaneceu cercada pelas pistas, tornando-se um símbolo internacional da resistência individual diante do poder público.

Esses dois episódios provocam uma reflexão filosófica profunda.

Durante décadas, o Ocidente apresentou o capitalismo como o sistema da liberdade individual e da propriedade privada. Por outro lado, a China foi frequentemente retratada como um modelo excessivamente centralizador, onde os interesses coletivos prevaleceriam sobre os individuais.

Entretanto, quando observamos casos concretos, percebemos que a realidade é mais complexa do que os discursos ideológicos.

A questão central não é se uma sociedade se define como capitalista ou socialista. A verdadeira questão é: qual o limite moral do Estado diante da vida das pessoas?

Uma estrada pode ser importante. Uma ponte pode ser necessária. Um aeroporto pode impulsionar a economia. Mas nenhuma obra deveria transformar seres humanos em simples obstáculos administrativos.

O filósofo alemão Immanuel Kant defendia que o ser humano jamais deveria ser tratado apenas como meio para atingir um fim, mas sempre como um fim em si mesmo. Quando uma família perde sua terra, sua casa ou sua história sem que sejam esgotadas todas as alternativas possíveis, surge uma questão ética que transcende leis e contratos.

A fotografia da idosa goiana e a imagem da casa cercada por rodovias na China contam a mesma história sob perspectivas diferentes. Ambas nos lembram que o desenvolvimento não pode ser medido apenas pela velocidade dos automóveis, mas também pela capacidade de uma sociedade preservar a dignidade de seus cidadãos.

Talvez o verdadeiro progresso não esteja na estrada construída, mas na forma como tratamos aqueles que vivem em seu caminho.

Uma civilização é julgada não pela altura de seus prédios, nem pela extensão de suas rodovias, mas pela maneira como protege os mais vulneráveis diante do poder.

Essa é a reflexão que permanece: quando o asfalto encontra a humanidade, qual dos dois deve ter prioridade?

Urias Rocha BR Jornalista Independente e Membro da ADESG

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